Como seria se tivéssemos nos encontrado? Seria em uma praça em Moscou ou em uma praia no Brasil? Nunca me esqueci de suas palavras “Poderíamos ter nascido ricos e então nos encontraríamos em alguma praça de Moscou ou em uma praia do Brasil, falaríamos de literatura, política e filosofia…”
Sempre que imaginei nosso encontro, visualizava a Patriarch Ponds em uma tarde de verão, sentaríamos no mesmo banco descrito por Bulgakov no célebre Mestre e Margarida e imaginaríamos Berlioz e Bezdomny discutindo a existência Jesus e então o surgimento de Wolland tomando parte na conversa. Riríamos até chorar, imaginando o gato Behemot tentando pagar sua passagem no bonde e recebendo como resposta do condutor: “animais não são aceitos aqui!”
Mergulharíamos de cabeça na literatura russa, falaríamos de Dostoievski, Tolstoi e Pushkin, e então concluiríamos que tanto na Rússia quanto no Brasil, os ícones da literatura são mulatos. Passearíamos pela literatura moderna e eu criticaria Paulo Coelho e você falaria de Pelevin e a Geração P.
Cansados da prosa passaríamos a poesia, e então discutiríamos porque gosto de Neruda e você de Lorca. Recitaríamos em espanhol nossos poemas prediletos e chegaríamos a conclusão de que ambos escritores são bons, mas o meu tem um Nobel!
Abriríamos uma garrafa de vodka para selar nossa amizade e a beberíamos a moda russa, com um brinde a cada rodada. O meu primeiro brinde seria a nossa amizade, o segundo a Nikolai Bukharin pois, de certa forma, foi por causa dele que começamos a conversar.
Já bêbados e tarde da noite, voltaríamos para casa cantando aquela música do Kino.
| Видели ночь, Гуляли всю ночь до утра. |
Videli noch’, Gulyali vsyu noch’ do utra. |
Nós vimos a noite, Caminhamos sob a noite até amanhecer |
Seria um encontro memorável!
Seria……
Porque é noite e não estou em Moscou sentado em um banco de praça, estou em uma praia no Brasil, deitado em uma rede, ouvindo uma daquelas músicas melancólicas a Yulia Chicherina e desejando que você descanse em paz.
Valeu a parceria de anos meu velho! Você ainda vive em minhas lembranças e em meu coração.
Guaratuba, 11 de janeiro de 2012.
Dedicado a memória de Anton Ivanitsky (1978- 2010)
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Anton era repórter chefe da divisão de notícias internacionais do jornal Gazeta de Moscou.Ele também era meu amigo. |

